‘Vários tipos de cerveja também podem ser apreciados com atenção’

cerveja_tipos A combinação de cevada, água, levedura e lúpulo pode levar o apreciador da bebida favorita dos brasileiros a um mundo de variedades, muito além da pilsen, o tipo mais servido nas mesas de bar do país. Existem mais de 120 estilos de cervejas no mercado, com milhares de características que dependem da região e da receita dos produtores. Com tantas opções, a degustação da bebida se transformou em um ritual cheio de sabor e aroma. Para os apreciadores, a ordem é experimentar.

Na hora de se aventurar em uma degustação de cerveja, antes mesmo de escolher por qual tipo da bebida começar, deixe de lado os preconceitos. Invista na qualidade e não na quantidade. “É preciso estar aberto à experimentação e encontrar na bebida um prazer. Quando uma pessoa se imagina tomando cerveja, ela sempre se lembra da refrescância e do grande volume de consumo. Mas a experiência não está no volume, e sim no perfil sensorial que aquela cerveja pode oferecer”, explica Cilene Saorin, mestre cervejeira e beer sommelier, que presta consultoria para grandes e pequenas empresas.
Segundo Cilene, uma boa cerveja pode acompanhar até mesmo doces

Para os inexperientes, o ideal é começar com as cervejas mais leves e menos amargas. O estilo mais popular e mais conhecido no Brasil é o pilsen. O conselho de Kathia Zanatta, beer sommelier do grupo Schincariol, é escolher os rótulos artesanais com 100% de malte. “Elas são mais encorpadas”, explica. “Depois a pessoa pode avançar para uma pale ale, uma strong golden ale ou uma bock, que é um pouco mais amarga. É igual ao vinho, você vai descobrindo e avançando conforme percebe os sabores”, completa.

Experimentar os mais diversos rótulos é como provar pratos diferentes. De acordo com Cilene, um mesmo estilo pode trazer várias surpresas e ingredientes. “Se você tem arroz arbório, presunto parma, aspargos, parmesão e vinho branco, e pedir um risoto para três chefs, cada um vai prepará-lo à sua maneira. Assim são os mestres cervejeiros: cada um faz seu rótulo e tem sua receita. Quem gosta de cerveja tem um verdadeiro mundo para conhecer”, defende a especialista.

Na taça
Por isso, a degustação de uma cerveja costuma ser muito similar ao ritual empregado para experimentar um vinho. O copo tem um papel importante no processo. Nada de tulipas ou copos de plástico. “O ideal é que seja uma taça de vidro, bem limpa, com uma haste, para que a pessoa possa segurar sem apoiar as mãos onde está o líquido, para não esquentar a bebida. As taças abaulares (com a borda menor que o fundo) conseguem capturar melhor os aromas”, revela Kathia. Para as mulheres, o batom é proibido durante o processo. “Ele pode acabar com a rede de proteínas da espuma”, completa.

Abrir a garrafa também faz parte da degustação. “Na hora de tirar a tampa, é preciso escutar aquele barulhinho de tchiiiiii. É uma forma de verificar se a cerveja está danificada ou se saiu gás carbônico do recipiente”, alerta Kathia. Na hora de servir, deixe a garrafa afastada da borda e coloque o líquido no centro da taça para criar uma boa espuma. Ela deve ser consistente, com bolinhas pequenas. Além disso, precisa manter a estabilidade, sem desaparecer rapidamente, porque isso ajuda a manter a temperatura da cerveja e evitar a oxidação.

Para sentir os aromas, mexa a taça em movimentos circulares e depois cheire a bebida. “O ser humano é capaz de identificar mais de 10 mil aromas. O problema é que não estamos acostumados a ter uma memória olfativa, a sentir cheiros. Vale a pena treinar isso”, sugere a beer sommelier. A temperatura também pode influenciar no aroma. “Basta observar que, quando a cerveja esquenta, as características mudam”, diz Kathia. As bebidas mais claras e menos alcoólicas pedem temperaturas mais baixas e mais escuras, mais altas.

Ácido, amargo, doce, salgado e unami (1) são os cinco sabores que podemos sentir na boca durante uma degustação. E é possível sentir todos eles na cerveja. No entanto, a qualidade da bebida vai estar na sua vontade de beber mais. “O sabor é o que te convida ao próximo gole. Se ela for pegajosa ou não descer bem na garganta, não é boa”, comenta. A dica é anotar todas as impressões da degustação em um caderno para compará-las com novas opiniões quando a sessão for repetida.

Acompanhamentos
As regras de harmonização da cerveja com a gastronomia também são as mesmas do vinho. Bebidas com sabores fortes e intensos combinam com pratos com a mesma qualidade para encontrar o equilíbrio. A beer sommelier Cilene Saorin sugere algumas combinações para o primeiro jantar. Uma salada de folhas verdes com tomate e queijo fresco temperada com azeite combina com o estilo witbier, por causa do nível de acidez dos dois itens.

Para continuar com o cardápio de entradas, bruschetta com presunto de parma vai bem com cervejas doppel bock. “A bebida tem o malte como protagonista e por isso apresenta um nível de doçura maior. Essa estrutura contrasta com o toque salgado do presunto. É o que chamamos de uma clássica harmonização por contraste”, conta Cilene.

Cerveja também combina com sobremesa. Se o prato for à base de chocolate, como o petit gateau, a sommelier sugere duas experiências gastronômicas. “Um bom estilo é o porter, que tem um blend de maltes. Outra opção é a lambc framboise, uma cerveja belga com framboesas maceradas com sabor muito marcado. É como se você tivesse a ilusão de comer um bolo de floresta negra.”

1 – Quinto sabor
Umami, em japonês, ou savory, em inglês, é o sabor correspondente à sensação gustativa provocada pelo glutamato ou ácido glutâmico. É tratado na gastronomia como quinto sabor. O equilíbrio de sabores, chamado de balanço, é um importante quesito para a avaliação, embora em alguns estilos a predominância de um deles seja intencional.

Ritual

1° passo
Selecione os copos. Escolha uma taça de vinho ou algum copo de vidro que tenha uma haste, que ajuda a manter a temperatura da bebida. As taças precisam estar bem limpas, porque a sujeira ou restos de detergente alteram a estrutura da espuma. Nada de perfumes ou batom durante a degustação, porque também pode atrapalhar o processo

2° passo
Ao abrir a garrafa, verifique se ela produz o famoso barulho de “tchiiiiii”. É sinal de que a bebida está bem conservada, o gás não vazou e a cerveja não está oxidada

3° passo
Na hora de servir a cerveja na taça, afaste um pouco a garrafa da borda do copo e mire no centro. O objetivo é criar uma espuma gentil, com bolinhas menores. O líquido deve ocupar no máximo 1/3 do copo, para que o aroma seja preservado em seu interior

4° passo
Observe a cor da cerveja. Se ela tiver um líquido brilhante, quer dizer que ela foi filtrada. Se for opaca, ela tem mais fermento. É nessa hora que se criam as expectativas em relação ao sabor da cerveja

5° passo
Agite o líquido no copo com movimentos circulares. O movimento ajuda a liberar o aroma. Sinta os cheiros da bebida, como se estivesse degustando um vinho

6° passo
É hora de sentir o sabor. Perceba a intensidade do amargor. Se o sabor é pegajoso ou é sentido na garganta, é sinal de que a cerveja não é boa. O melhor sinal de que a bebida é de qualidade é a vontade de beber outro gole

Dicas
» É importante sugerir que todos os participantes ingiram qualquer bebida alcoólica pelos menos 12 horas antes do evento, para que os órgãos envolvidos na degustação estejam atentos a todos os estímulos

» É essencial que a atmosfera seja descontraída, sem exigência de formalidades ou normas de etiqueta. Cerveja combina com alegria e informalidade

» Os rótulos que serão degustados devem ser definidos previamente. A sessão pode ser de cervejas do mesmo estilo, para comparar produtos de diferentes fabricantes. Outra possibilidade é realizar uma degustação de estilos diferentes para prestar atenção às características de cada um

» Nada de servir comidas salgadas ou gordurosas como salsichas, batatas fritas e amendoim, porque elas podem interferir no sabor da cerveja. Para limpar o paladar, beba água sem gás ou coma pães e biscoitos sem sal

Principais Estilos

A receita básica da cerveja é malte de cevada, lúpulo, água e levedo. A bebida, no entanto, é bem versátil. Os ingredientes utilizados podem variar, assim como o tipo de fermentação e a duração das etapas do processo. Os tipos de malte definem também os tipos de cerveja que produzem. O mais comum no Brasil é o lager mas é possível encontrar cervejas importadas com sabores distintos. Procure por esses nomes nos rótulos e experimente novos sabores. As mais fáceis de ser encontradas são:

Lager – tem cor clara e aroma de cereal, predominante nas cervejas do tipo Lager e Pilsen.

Pale Ale – é um pouco mais escura e lembra biscoito, é encontrado nas cervejas do tipo Ale.

Caramelo – o malte lembra açúcar queimado e é usado nas cervejas Bock e Oktoberfest.

Chocolate – o nome é por causa da cor do malte, tem aromas de caramelo queimado, chocolate amargo ou café. É utilizado nas cervejas Porter, Brown Ale e, às vezes, na Stout.

Escuro – A cor e a aparência lembram a de café torrado. É muito usado na Stout.

Cevada torrada – tem sabor amargo e aroma intenso de café tostado pode ser encontrado na Irish Stout.

Trigo (Weiss ou Weizen)- Para serem consideradas de trigo, as cervejas tem que ter, no mínimo, 50% de malte de trigo e o restante de malte de cevada.

 

Por: Tatiana Sabadini
Fonte: Correio Braziliense
Imagem: Google imagens

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